Queria deixar claro que essa idéia surgiu em uma madrugada de insônia bem antes d'eu pôr os olhos em "Garotas Que Dizem Ni" (embora agora faça algumas referências às idéias delas) e é uma homenagem a minha querida amiga Conchita.
Antes de mais nada, sua novela tem que ser romântica, trágica e escancaradamente cômica! Nenhum capítulo pode ir ao ar sem conter uns gritos e uns maravilhosos tapas na cara! E a trama tem que, invariavelmente, contar com: uma mocinha muito boa (aquele tipo de gente que não existe); um mocinho-galã de nome duplo que não combina e expressões forçadas; uma vilã que se acha apaixonada pelo mocinho-galã ou quer, pura e simplesmente, se casar com ele; mais um punhado de pequenos vilões e umas duas pessoas que ajudem a mocinha; empregados fofoqueiros e intrometidos; crianças que vão sofrer atentados dos vilões e algum velho doente.
O nome
Você tem que escolher um nome completamente fora de qualquer contexto lógico e grande apelo dramático, como: "Café com aroma de mulher" ou "Direito de nascer". Também pode conter o nome da mocinha ou alguma dificuldade que ela vai passar. (Se você estiver escrevendo como Conchita e eu, seu título deve ser cômico)
A mocinha
Normalmente se chama Maria, mas também recebe nomes de cunho religioso. E sempre, sempre, nome duplo. Se ela tiver uma irmã gêmea, abre-se mão de Maria para usar nomes parecidos (a irmã gêmea sempre se une a vilã, quando não é ela mesma).
A mocinha tem que reunir em si muitas coisas não-apreciadas pelo mocinho-galã até que eles se conhecem em alguma situação clichê como atropelamento, roubo ou esbarrão na esquina e se apaixonam. Ela sempre sofre muito, de acordo com a vontade do nobre autor.
O mocinho-galã
Recebe o nome mais glamouroso da telenovela. Normalmente é algo como Carlos Daniel, Fernando Afonso ou Rogério Henrique. E claro, tem um imponente sobrenome. É muito rico e charmoso, tendo a mulher que quiser. Tem uma ex-namorada ou ex-noiva, que termina quando conhece e se apaixona pela mocinha, que se torna a vilã vingativa.
O mocinho-galã sempre tem amigos que não gostam da mocinha, por ser diferente deles, e recebem nomes que façam o público rir.
A vilã
Sempre uma riquinha-mal-amada-e-solitária que usa o dinheiro para comprar suas amizades e a beleza para trazer os amigos do mocinho-galã pro lado dela e prejudicar a mocinha (sim, a vilã sempre é bonita, rica e sensual, mas não queira o seu papel, pois ela ou morre ou é internada num manicômio enquanto a mocinha bebe uma taça de vinho na cama com o mocinho-galã).
A vilã tem sempre um nome bonito e carrega, assim como o mocinho-galã e seus amigos preconceituosos, um poderoso sobrenome (a menos que seja a gêmea da mocinha).
Os "vilões"
Aspas porque eles não são vilões como a vilã-mal-amada-e-solitária, são apenas pessoas invejosas que, ao mesmo tempo que se sentem atraídos pela adorável mocinha, querem mantê-la longe e, de quebra, prejudicá-la com o mocinho-galã. Aqui estão os amigos-bolhas do mocinho-galã, a irmã gêmea (se não for adepta das maldades pesadas) e os empregados-abusados da família do mocinho-galã.
Os "vilões" sempre recebem apelidos ou nomes simpáticos, como Pepito, e acabam adorando a mocinha no final e ajudando o mocinho-galã a perceber que eles são feitos um para o outro.
A mãe do mocinho-galã
Tende a ficar um pouco insegura ao ver o filho tão apaixonado, mas assim que conhece a mocinha encontra uma ótima pessoa, a norinha que pediu a Deus e passa a ser sua principal aliada contra as forças do mal (haha não resisti).
Ela sempre recebe um nome carinhoso, como Conchita, mas pode, junto com a mocinha, ser muito perigosa.
A família
Do mocinho-galã, claro, uma vez que a mocinha conta apenas com uma irmã, um pai ou uma avó doente (a mocinha nunca tem a mãe para apoiá-la, logo sofre mais).
A família do mocinho-galã não aprova a sua escolha e tende a ficar do lado dos amigos antigos e conhecidos do mocinho-galã, mas aos poucos (ou ao estilo "amor a primeira vista") vai também se apaixonando pelo inegável carisma da mocinha.
Os empregados da família
Sempre são intrometidos e contam tudo que acontece à mãe do mocinho-galã. Alguns se corrompem e ajudam o núcleo da vilania, mas na sua maioria são pessoas boas e a mocinha sempre conta com a ajuda incondicional de uma cozinheira gorda ou um antigo jardineiro da casa.
As crianças
São os filhos do casal e aparecem na parte da telenovela em que finalmente eles percebem que devem ficar juntos (um pouco antes da vilã ter um fim trágico e os amigos aceitarem a mocinha ou sumirem da trama).
Sempre recebem o nome dos pais e também são chamados por apelidos.
Podem também ser irmãos do mocinho-galã, nesse caso são grandes aliados da mocinha desde o início, mas como crianças, vez ou outra caem na lábia dos vilões.
O velho doente
É sempre ligado à mocinha, para ser mais um motivo de sofrimento para a mesma. Pode ser o pai, a avó ou aquele jardineiro antes mencionado. Embora passe o tempo todo muito doente, assiste o casamento da mocinha com o mocinho-galã e não morre, já que aqui o final é sempre feliz.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
terça-feira, 3 de junho de 2008
O que todo pretenso, jovem e inteligente escritor deve saber sobre clichês e abiu
O papai diz que clichê é uma "frase ou idéia banalizada por repetição excessiva" e também "lugar-comum". Logo, se é lugar-comum, vamos acabar sempre nele.
A regra mais importante ao lidar com clichês é: Não fuja deles. Não adianta nem tentar, você pode corrar, mas não pode se esconder. Sim, eles vão te encontrar até mesmo lá.
A segunda regra mais importante ao lidar com clichês é: não caia no erro de achá-los banais (banal: sem originalidade; vulgar, corriqueiro).
Sim, clichês não são originais, mas o que é original? Que atire a primeira pedra quem tiver em mãos algo super inovador, nunca escrito antes de você colocar pra fora. E que me atire um avião quem não utiliza "frases feitas" ou bordões ou qualquer outra coisa que seja da família dos clichês.
Falamos clichês, vemos clichês em filmes (aliás, as fórmulas de filmes já são clichês quase em forma puríssima), lemos clichês em crônicas atuais e contos de anos atrás.
Será que somos todos clichês? ...
Não resisti, mas já parei.
Já que temos que conviver com clichês e usá-los, façamos direito. Goste dos seus clichês, trate-os bem, mude-os como queira e misture-os à vontade. Coisas ótimas vão aparecer (ou o bolo pode solar).
Ah, claro! Esqueci do abiu.
Abiu é um fruto que tem forma e tamanho de um ovo de galinha comum e tem a superfície lisa, amarela e brilhante. Sua polpa é esbranquiçada e muito doce, excelente contra infecções pulmonares ou pessoas desnutridas.
E eu nunca vi, nem comi, só ouvi falar.
A regra mais importante ao lidar com clichês é: Não fuja deles. Não adianta nem tentar, você pode corrar, mas não pode se esconder. Sim, eles vão te encontrar até mesmo lá.
A segunda regra mais importante ao lidar com clichês é: não caia no erro de achá-los banais (banal: sem originalidade; vulgar, corriqueiro).
Sim, clichês não são originais, mas o que é original? Que atire a primeira pedra quem tiver em mãos algo super inovador, nunca escrito antes de você colocar pra fora. E que me atire um avião quem não utiliza "frases feitas" ou bordões ou qualquer outra coisa que seja da família dos clichês.
Falamos clichês, vemos clichês em filmes (aliás, as fórmulas de filmes já são clichês quase em forma puríssima), lemos clichês em crônicas atuais e contos de anos atrás.
Será que somos todos clichês? ...
Não resisti, mas já parei.
Já que temos que conviver com clichês e usá-los, façamos direito. Goste dos seus clichês, trate-os bem, mude-os como queira e misture-os à vontade. Coisas ótimas vão aparecer (ou o bolo pode solar).
Ah, claro! Esqueci do abiu.
Abiu é um fruto que tem forma e tamanho de um ovo de galinha comum e tem a superfície lisa, amarela e brilhante. Sua polpa é esbranquiçada e muito doce, excelente contra infecções pulmonares ou pessoas desnutridas.
E eu nunca vi, nem comi, só ouvi falar.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
A grama do vizinho é sempre mais verde??
Ele saiu como se não tivesse entrado. Se não fosse uma pequena variação de humor percebida apenas por poucos mais íntimos, todos diriam que ele não chegou a entrar. Mas entrou e ficou lá dentro um tempo que talvez não tenha sido suficiente ou suficientemente bom para fazê-lo ficar ou ao menos sair um pouco mais penosamente. Saiu e resolveu esquecer que tinha entrado. Era melhor assim. Ele não era um cara que aceitasse sofrer e ainda mais por ela.
Ela? Ela ficou lá. Não teve coragem de sair. Já tinha esquecido como era o mundo lá fora. Se sentia fraca, desprotegida e muito despreparada. Ficou. Mas era triste demais, solitário demais, estar sozinha num lugar para dois é duplamente mais complicado do que dividir uma cama para um com um outro. Várias pessoas que gostavam dela tentaram ajudar pela janela, não podiam entrar num lugar que tinha o tamanho de outra pessoa. Feito na medida certa (para a pessoa errada?) e agora sobrava um espação. Ou faltava? É, faltava alguma coisa. Ela rondou e rondou a porta depois de quase súplicas dos prezados amigos. Resolveu sair. Meses (ou teriam sido apenas minutos?) depois a porta se abriu de novo. Não foi como da primeira vez, de uma maneira quase fugitiva e secreta, foi com um receio de não conseguir e várias mãos esperando. E então ela também saiu. Sentiu o calor do sol de novo no seu rosto e o vento que levantava a saia fresquinha de verão. Sentiu todo o calor humano que esperava por ela de queridos amigos e de queridos desconhecidos que ia conhecer por aí. Saiu levando com ela nenhum móvel, mas todo o amor que houver nessa vida que eles juntaram lá dentro, do qual ele não levou, infelizmente, nada.
Olhou pra trás, para a casa tão bem cuidade durante tanto tempo, para a casa que se pudesse falar contaria coisas lindas e tristes, para a casa que ela estava deixando de vez para trás.
Ele, que já estava em outra casa nas redondezas, assistiu assustado, de uma janela apertada, a sua saída, que estava pegando-o totalmente desprevinido, pois esperava vê-la sempre abrindo as janelas, arrumando a casa que já não mais frequentava, cuidando sozinha de um amor que deveria estar esperando, quietinho, pela sua volta.
Ela sabia que ele estava olhando e que olharia por mais algum tempo das janelas (aliás, incomparáveis com as dela) da outra casa, mas não se importou. Nem com ele, nem com a casa.
Olhou mais uma vez para sua antiga casa, suspirou, fechou os olhos e respirou bem fundo para guardar tudo que era bom, soltando depois, entre risadas, tudo de ruim que ela não queria levar.
Abriu os olhos e sorriu. Sorriu para a alegre nova vida que a esperava e para as novas casas que viriam por aí e para aquela casa, que ela não conhecia ainda, mas sabia que na hora certa iria entrar pela porta principal para não mais sair.
Ela? Ela ficou lá. Não teve coragem de sair. Já tinha esquecido como era o mundo lá fora. Se sentia fraca, desprotegida e muito despreparada. Ficou. Mas era triste demais, solitário demais, estar sozinha num lugar para dois é duplamente mais complicado do que dividir uma cama para um com um outro. Várias pessoas que gostavam dela tentaram ajudar pela janela, não podiam entrar num lugar que tinha o tamanho de outra pessoa. Feito na medida certa (para a pessoa errada?) e agora sobrava um espação. Ou faltava? É, faltava alguma coisa. Ela rondou e rondou a porta depois de quase súplicas dos prezados amigos. Resolveu sair. Meses (ou teriam sido apenas minutos?) depois a porta se abriu de novo. Não foi como da primeira vez, de uma maneira quase fugitiva e secreta, foi com um receio de não conseguir e várias mãos esperando. E então ela também saiu. Sentiu o calor do sol de novo no seu rosto e o vento que levantava a saia fresquinha de verão. Sentiu todo o calor humano que esperava por ela de queridos amigos e de queridos desconhecidos que ia conhecer por aí. Saiu levando com ela nenhum móvel, mas todo o amor que houver nessa vida que eles juntaram lá dentro, do qual ele não levou, infelizmente, nada.
Olhou pra trás, para a casa tão bem cuidade durante tanto tempo, para a casa que se pudesse falar contaria coisas lindas e tristes, para a casa que ela estava deixando de vez para trás.
Ele, que já estava em outra casa nas redondezas, assistiu assustado, de uma janela apertada, a sua saída, que estava pegando-o totalmente desprevinido, pois esperava vê-la sempre abrindo as janelas, arrumando a casa que já não mais frequentava, cuidando sozinha de um amor que deveria estar esperando, quietinho, pela sua volta.
Ela sabia que ele estava olhando e que olharia por mais algum tempo das janelas (aliás, incomparáveis com as dela) da outra casa, mas não se importou. Nem com ele, nem com a casa.
Olhou mais uma vez para sua antiga casa, suspirou, fechou os olhos e respirou bem fundo para guardar tudo que era bom, soltando depois, entre risadas, tudo de ruim que ela não queria levar.
Abriu os olhos e sorriu. Sorriu para a alegre nova vida que a esperava e para as novas casas que viriam por aí e para aquela casa, que ela não conhecia ainda, mas sabia que na hora certa iria entrar pela porta principal para não mais sair.
terça-feira, 27 de maio de 2008
pontocompontobêerre
Ela se orgulhava de ser uma mulher moderna. Aproveitar ao máximo tudo que a tecnologia tinha a oferecer.
Fazia compras passeando pelos sites. Até supermercado era sentadinha na sua confortável cadeira de couro sintético branco.
Escrevia críticas gastronômicas para uma revista importante e só saía de casa para o seu delicioso trabalho. Ou para resolver problemas na escola dos meninos.
Adorava dizer que era "mãe de dois" só para ouvir "nossa, com esse corpo??". Mas gostava ainda mais quando diziam que eram "ótimos meninos" e que "criar meninos não é fácil". É, ela sabia que não era. Ainda mais sem um pai por perto. Nem o seu pai estava mais ali, mas tinha tido grande papel e importância na vida dos seus meninos até a hora de ir. Agora era só ela e os dois. E ela se virava bem.
O trabalho com horário "livre" era perfeito e resolver as coisas por computador deixava todo o resto do tempo para o que dava mais trabalho, ser mãe.
Enquanto pagava contas, escrevia para a coluna e comprava coisas, o messenger estava aberto, os scraps eram respondidos e é aí que começa o que eu vim contar.
Achou umas fotos dentro de um livro que leu quando estava na faculdade. Fotos de uma viagem, um feriado prolongado em Verão Vermelho, o point entre os amigos da época. Abriu logo a janela de uma das personagens das fotos e começaram a relembrar esses tempos. Lembraram de uma banda que ouviram em um sarau, no bar mais 'descolado' da pracinha, e gostaram bastante. Lembraram o nome da banda e ela arriscou procurar no MySpace. Claro que achou, senão não teria o que ser contado, mas para ela foi só mais uma prova das maravilhas da Internet.
Bom, achou os caras, perguntou se eles se lembravam do sarauzinho e resolveu manter contato, relembrar uma época que não pensava em filhos, em contas nem em Internet.
O vocalista tinha morrido de overdose, eles já estavam com outros há uns anos, mas tirando isso a banda era a mesma.
Depois de dias conversando com o tecladista (viúvo e inteirão), descobriram uns dois ou três amigos em comum, vários interesses e 'causos' parecidos e assistiram à mesma palestra sobre "Liberdade de expressão".
Lógico, marcaram um chope.
E de repente, ela se sentiu com nervosos 20 aninhos de novo. Não sabia o que vestir, não sabia o que calçar, não sabia o que dizer, pensou em dizer que estava com dor de barriga. Ah, não! Dor de barriga não! Pelo menos podia dar uma desculpa de 40.. Problemas com os filhos. E se podia dar uma desculpa adulta, poderia ter uma atitude adulta! Poderia? Unhas quase roídas e um pacote de biscoitos a menos na despensa... Resolveu que ia sim! Vestiu um jeans não muito apertado, uma blusinha, aquele casaco novo e... um salto! Afinal, não tinha mais 20. Cabelos presos ou soltos? Já que não tinha lavado, foi com eles presos (num rabo-de-cavalo talvez um pouco alto demais...).
Deu um beijo nos filhos, passou um batonzinho e foi curtir a vida aonde as pessoas olham nos olhos e não para as fotos e nós ouvimos uma voz e não um barulhinho quando falam conosco.
Fazia compras passeando pelos sites. Até supermercado era sentadinha na sua confortável cadeira de couro sintético branco.
Escrevia críticas gastronômicas para uma revista importante e só saía de casa para o seu delicioso trabalho. Ou para resolver problemas na escola dos meninos.
Adorava dizer que era "mãe de dois" só para ouvir "nossa, com esse corpo??". Mas gostava ainda mais quando diziam que eram "ótimos meninos" e que "criar meninos não é fácil". É, ela sabia que não era. Ainda mais sem um pai por perto. Nem o seu pai estava mais ali, mas tinha tido grande papel e importância na vida dos seus meninos até a hora de ir. Agora era só ela e os dois. E ela se virava bem.
O trabalho com horário "livre" era perfeito e resolver as coisas por computador deixava todo o resto do tempo para o que dava mais trabalho, ser mãe.
Enquanto pagava contas, escrevia para a coluna e comprava coisas, o messenger estava aberto, os scraps eram respondidos e é aí que começa o que eu vim contar.
Achou umas fotos dentro de um livro que leu quando estava na faculdade. Fotos de uma viagem, um feriado prolongado em Verão Vermelho, o point entre os amigos da época. Abriu logo a janela de uma das personagens das fotos e começaram a relembrar esses tempos. Lembraram de uma banda que ouviram em um sarau, no bar mais 'descolado' da pracinha, e gostaram bastante. Lembraram o nome da banda e ela arriscou procurar no MySpace. Claro que achou, senão não teria o que ser contado, mas para ela foi só mais uma prova das maravilhas da Internet.
Bom, achou os caras, perguntou se eles se lembravam do sarauzinho e resolveu manter contato, relembrar uma época que não pensava em filhos, em contas nem em Internet.
O vocalista tinha morrido de overdose, eles já estavam com outros há uns anos, mas tirando isso a banda era a mesma.
Depois de dias conversando com o tecladista (viúvo e inteirão), descobriram uns dois ou três amigos em comum, vários interesses e 'causos' parecidos e assistiram à mesma palestra sobre "Liberdade de expressão".
Lógico, marcaram um chope.
E de repente, ela se sentiu com nervosos 20 aninhos de novo. Não sabia o que vestir, não sabia o que calçar, não sabia o que dizer, pensou em dizer que estava com dor de barriga. Ah, não! Dor de barriga não! Pelo menos podia dar uma desculpa de 40.. Problemas com os filhos. E se podia dar uma desculpa adulta, poderia ter uma atitude adulta! Poderia? Unhas quase roídas e um pacote de biscoitos a menos na despensa... Resolveu que ia sim! Vestiu um jeans não muito apertado, uma blusinha, aquele casaco novo e... um salto! Afinal, não tinha mais 20. Cabelos presos ou soltos? Já que não tinha lavado, foi com eles presos (num rabo-de-cavalo talvez um pouco alto demais...).
Deu um beijo nos filhos, passou um batonzinho e foi curtir a vida aonde as pessoas olham nos olhos e não para as fotos e nós ouvimos uma voz e não um barulhinho quando falam conosco.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Sweet Child O' Mine
Você pára cansado seu carro num sinal inconveniente e uma criança brincando com uns bonequinhos no carro ao lado te levam de volta 30 anos, em direção àquele menininho levado que não se continha dentro de carros e perguntava toda hora se já estavam chegando. Menos na escola.
Aquela praia que era atravessada correndo agora te tem sentada, calma, para o mar que já não parece tão convidativo com suas águas que agora parecem mais geladas e menos doces. Mas você não pode se prender ao mar nem às lembranças, os seus três filhos estão brincando na beira e dois deles começaram a trocar socos e empurrões. Um dos brigões é sua menininha. Anda, vai lá, levanta antes que alguém se afogue.
Um cheiro leva você de volta a cozinha da vovó fazendo aquele bolo preferido. E era surpresa, então sai correndo de volta pro jardim. Ou lembra aquele quarto em que parecia que o mundo era inofensivo e só girava lá fora. Aqueles lençóis que passaram tanto tempo com você e que depois de alguns anos pararam de cobrir aquela cama. O que será que aconteceu com aqueles lençóis? Você chegou a pedí-los especiais no testamento e eles se foram?
Os cabelos da "tia" da creche parecem os cabelos da sua mãe. Os olhos enchem d'água e você tem vontade de deitar no colo desses cabelos por não poder mais deitar no da sua mãe.
Lembranças lembranças. Te mostram como é doce aquela criança que você esqueceu (não, ainda não está na hora de buscá-lo no colégio). Antes, as provas, os amores, as festas. Depois os compromissos, as contas, o horário apertado do trabalho, as novas crianças, foram empurrando o seu pequeno "eu" (não eu, você) lá pro canto, como suas bonecas no fundo do armário, daonde ele ainda sai contente quando vê algo que goste e que o lembre a você.
E aí está a felicidade. O reencontro de dois importantes "eu" (não eu, você), felizes por sentirem a mesma coisa, por verem a alegria num mesmo ponto.
Vamos lá, o sinal reabriu, a criança do carro ao lado já desapareceu no trânsito "and if I stay there too long I'll probable break down and cry".
sexta-feira, 23 de maio de 2008
"Eu tive um sonho ruim e acordei chorando, por isso eu te liguei"
Ele abriu os olhos e logo viu que estava preso. Na verdade, ele não viu absolutamente nada. Ver aqui é força de expressão, assim como "se viu numa grande enrascada" ou "viu que seria uma grande aventura" (créditos à sessão da tarde), ele sabia que estava preso, só não sabia aonde. E não lembrava de nada.
Tentou se mexer. Apertado demais. Tentou sair. Impossível, bateu e se debateu. Continuou na mesma. Agora um pouco suado e com uma ligeira falta de ar.
O silêncio voltou aos poucos e deu lugar a uma voz. Não, não era a voz de Deus. Era a voz da sua namorada. Aliás, agora noiva.
"...porcariaa de futebol com seus amigos..."
"...amigos que não valem nada..."
"...ela está chorando...levanta você dessa vez..."
"...certo sair pra bebeeer depois do trabalho?..."
"...bela desculpa..."
"...acordada a noite inteira cuidando do seu filho..."
"...pegar suas roupas sujas pelo quarto..."
"...tampa do vaso sanitário...pia molhada..."
"...somos bons amigos também..."
"...trabalho, trabalho, trabalho..."
"...almoço na casa da mamãe..."
"...eu te amei...quero a separação...as crianças...você sai..."
O ar restante agora era tão raro que ele pensou em quanto ele valeria no mercado se houvesse um.
Desesperado, recomeçou a bater na madeira em volta. O barulho terrível das batidas secas se tranformou no reconfortante barulho do despertador.
Ele nunca gostou tanto do sol da manhã no rosto e nunca olhou tão pensativo para a foto que estava no porta-retrato na cabeceira, com "eu te amo" em cola-colorida vermelha.
Sim, era o dia do casamento.
Tentou se mexer. Apertado demais. Tentou sair. Impossível, bateu e se debateu. Continuou na mesma. Agora um pouco suado e com uma ligeira falta de ar.
O silêncio voltou aos poucos e deu lugar a uma voz. Não, não era a voz de Deus. Era a voz da sua namorada. Aliás, agora noiva.
"...porcariaa de futebol com seus amigos..."
"...amigos que não valem nada..."
"...ela está chorando...levanta você dessa vez..."
"...certo sair pra bebeeer depois do trabalho?..."
"...bela desculpa..."
"...acordada a noite inteira cuidando do seu filho..."
"...pegar suas roupas sujas pelo quarto..."
"...tampa do vaso sanitário...pia molhada..."
"...somos bons amigos também..."
"...trabalho, trabalho, trabalho..."
"...almoço na casa da mamãe..."
"...eu te amei...quero a separação...as crianças...você sai..."
O ar restante agora era tão raro que ele pensou em quanto ele valeria no mercado se houvesse um.
Desesperado, recomeçou a bater na madeira em volta. O barulho terrível das batidas secas se tranformou no reconfortante barulho do despertador.
Ele nunca gostou tanto do sol da manhã no rosto e nunca olhou tão pensativo para a foto que estava no porta-retrato na cabeceira, com "eu te amo" em cola-colorida vermelha.
Sim, era o dia do casamento.
Cego se apaixona "à primeira vista"? ou Existe o tal amor à primeira vista?
Resposta mais absurda a essa esdrúxulérrima enquete televisiva: "Sim, já que o que importa está dentro da gente!"
É, realmente o que importa está dentro. Logo, conclui-se logicamente que, cego ou não, não se apaixona à primeira vista.
Você sente atração.
Você gosta disso e desgosta daquilo.
Você pode até achar que encontrou alguém perfeito.
É super legal, até que a pessoa abre a boca e despeja quilos de porcarias em cima de você ou faz a única coisa que não poderia fazer.
Você acha a pessoa "mais ou menos".
Você mal repara nela.
Você não viraria para olhar duas vezes na rua.
Até que a pessoa abre a boca e você se encanta ou faz várias coisinhas que te sacodem em algum cantinho e você olha de novo, diferente.
Não nos apaixonamos à primeira vista e não nos desapaixonamos à segunda.
Não amamos ninguém de um dia para o outro e não desamamos da noite para o dia. O amor vem aos poucos e é maravilhoso. Mas ele também vai aos poucos, machucando várias vezes. Ou fica esperando em algum lugar. "Rosnando baixinho para ser ouvido até mesmo debaixo de chuva..."
Ou vai embora num baque surdo quando surge um novo amor. Dizem até que nada como um novo amor para esquecer um grande amor.
Amor amor amor.
Tenho pensado muito nisso.
Não pense, ame!
É, realmente o que importa está dentro. Logo, conclui-se logicamente que, cego ou não, não se apaixona à primeira vista.
Você sente atração.
Você gosta disso e desgosta daquilo.
Você pode até achar que encontrou alguém perfeito.
É super legal, até que a pessoa abre a boca e despeja quilos de porcarias em cima de você ou faz a única coisa que não poderia fazer.
Você acha a pessoa "mais ou menos".
Você mal repara nela.
Você não viraria para olhar duas vezes na rua.
Até que a pessoa abre a boca e você se encanta ou faz várias coisinhas que te sacodem em algum cantinho e você olha de novo, diferente.
Não nos apaixonamos à primeira vista e não nos desapaixonamos à segunda.
Não amamos ninguém de um dia para o outro e não desamamos da noite para o dia. O amor vem aos poucos e é maravilhoso. Mas ele também vai aos poucos, machucando várias vezes. Ou fica esperando em algum lugar. "Rosnando baixinho para ser ouvido até mesmo debaixo de chuva..."
Ou vai embora num baque surdo quando surge um novo amor. Dizem até que nada como um novo amor para esquecer um grande amor.
Amor amor amor.
Tenho pensado muito nisso.
Não pense, ame!
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